domingo, 20 de dezembro de 2009

TODO DIA É DIA

"Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo(...)É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre." (C.Drummond de Andrade) - Imagem: Google Imagens





FELIZ ANO TODO DIA NOVO!!!
Por Veruska Queiroz



É tempo de falar de resoluções de Ano Novo, não é mesmo?
E o que é ou representa o Ano Novo? Bom, Ano Novo para alguns pode simplesmente ser a passagem de um dia para o outro no calendário. Ok. Como cada pessoa tem, subjetivamente, várias representações de e sobre si mesmo e sobre o mundo, justíssimo esse pensamento. Para outros, no entanto, mesmo que na prática o Ano Novo seja efetivamente somente a passagem de um dia para outro no calendário, ainda assim, há outras tantas representações que tornam essa passagem especial. No imaginário de muitas dessas pessoas perpassa a idéia de que, ao mudar o ano, muitas coisas podem também ser mudadas em perspectiva externa e, principalmente interna. É a hora em que muitas pessoas acreditam que podem tomar um novo fôlego para, senão mudar parcial ou totalmente suas vidas, pelo menos se imbuir de novo ânimo, de mais coragem para continuar seus caminhos ou tentar caminhos novos, se for o caso.

Não farei aqui nenhum discurso ideológico sobre o Ano Novo, isso seria, no mínimo ingênuo. Minha intenção é de apenas tentar considerar as várias perspectivas existentes, suscitar considerações com as quais algumas pessoas talvez nunca tiveram contato e, para meu deleite, me deparar, certamente – o que acho sempre maravilhoso – com outras que jamais supus, porque tudo na vida que imaginarmos pode nos levar a milhares de questões que jamais pensamos e isso significa precisamente – e eu adoro isso também – expansão e evolução; o que gosto muito, porque penso ser justamente aí, a possibilidade de novas visões, de novos insigths, fortalecimento ou mudança de antigos padrões e, consequentemente, crescimento. Voilà!
Bom, mas o que realmente muda com o Ano Novo? E, se muda, onde isso nos leva? Talvez a lugar nenhum e talvez a muitos lugares. Penso que, seja o que for, decididamente, as respostas para essas perguntas e muitas outras só encontrarão voz, eco e significado dentro de cada um. É somente por dentro, de acordo com as próprias experiências, anseios de mudança ou não e expectativas que cada um pode articular e confrontar suas questões, desejos, certezas, dúvidas, suas considerações e perspectivas com milhões de questões que o mundo apresenta e decidir o que fazer com essa imensa salada.

Dito isso, fico imaginando agora que muitas pessoas a essa altura acharão que esse texto não parece passar de um “Manual de como começar seu Ano Novo” ou coisa parecida e descartarão de vez a leitura, usando como justificativa – muitas vezes justa – o fato de que, na verdade, nada muda de um ano para o outro e que esse assunto de “resoluções de fim de ano” é para os sonhadores e românticos. Ainda que eu respeite profundamente e possa achar legitímo, embora triste, que algumas pessoas pensem assim, o fato é que, tirando o lado que parece pouco realista dessa coisa toda de fim de ano, mas ao mesmo tempo, dando-lhe os créditos merecidos, precisamos mesmo, de tempos em tempos, seja em que época for, fazer nossas reavaliações e mudanças. Precisamos fazer um balanço geral da nossa vida de vez em quando: ver quais idéias, sentimentos, conceitos, paradigmas sustentam nossas concepções, filosofias de vida e ações e se elas ainda estão valendo, se ainda estão em sintonia com nós mesmos – sim, porque nós não somos os mesmos durante toda uma vida – e com o mundo que nos cerca ou precisam ser reciclados ou até mesmo mudados. Precisamos ver se aquela velha roupa ainda nos serve, se precisa apenas de umas pequenas reformas ou se precisamos de uma peça nova. Precisamos saber se nossas certezas e dúvidas, acertos e erros, sentimentos, pensamentos e ações de outrora continuam encontrando ressonância com a passagem do tempo que se dá para todos nós e para tudo o que existe. Caso contrário, paramos de crescer e evoluir, nossa inteligência e nossa percepção ficam prejudicadas e ficamos velhos(por dentro e por fora), chatos, deselegantes, cansativos e indesejáveis. Precisamos mesmo, de tempos em tempos, checar se “nossos estoques” estão precisando de reposições, se a poeira precisa ser varrida, se a “nossa casa” está precisando de um pouco de ventilação e sol ou até mesmo de uma mudança mais radical e efetiva. Mudanças são inerentes na vida de todos nós: mudamos de tamanho e de idade. Mudamos de série no colégio, de período na faculdade e de responsabilidades na vida madura. Mudamos de casas, de cidades, de trabalhos e às vezes até de amigos. Mudamos a forma de vestir, de falar e de nos posicionarmos. Mudamos nossas idéias, conceitos, perspectivas, nossos discursos, nossas atitudes e nossa forma de ver e lidar com o outro e com o mundo. Mudamos até de pele e de células. Isso é renovação. Isso é evolução. Isso é vida. Metaforicamente falando, todas essas coisas são como pequenos “Anos Novos” que vão acontecendo todos os dias, todos os meses e todos os anos em nossas vidas, durante nossa vida inteira. Então, mesmo que não seja numa data pré-estabelecida, todos nós precisamos sim fazer essas pausas para reavaliações, reformulações e mudanças de tempos em tempos.

E o que isso precisamente significa? Significa que não importa muito quando, como e quais reavaliações e resoluções serão colocadas em prática. O que importa é a atitude de mudança e renovação. Atitude de vivenciarmos esses pequenos "Anos Novos" em nossa vida. Em relação a nós mesmos, aos outros e a tudo o que nos cerca. Atitude de estarmos em constante reformulação e recriação, de não pararmos, de não nos acomodarmos e de não deixarmos que “nossos estoques” acabem, não deixarmos que “nossa casa” vire um mausoléu escuro e triste cheio de poeira e mofo, que nossa vida vire apenas um retrato bonito em cima do móvel da sala, sem movimento, sem mudança, sem graça e sem vida. O caminhar, às vezes é lento e muitas vezes, difícil e cansativo e cada um de nós terá seu próprio tempo e seu ritmo. Mas se pararmos é quase certo que teremos de lidar com o pior fracasso que nossa alma pode experimentar: a constatação de não sermos um indivíduo em sua plenitude porque não conseguimos sequer fazer talvez a única coisa que depende somente de nós mesmos; a possibilidade de nos vermos interna e emocionalmente fracos e fracassados - o fracasso da própria alma que sucumbiu ao medo, às dúvidas, à covardia e à inércia. Se assim for, mesmo que tenhamos o mundo aos nossos pés em outras esferas, seremos o pior e mais indigno dos derrotados. Mesmo um pequeno progresso é um avanço na direção de alguma mudança e do crescimento. Pequenos riachos se transformam em rios poderosos, mesmo que sua trajetória possa parecer estreita, longa e, aparentemente, sem muita importância. È preciso que continuemos em frente, nos propondo e nos permitindo fazer nossos pequenos “Anos Novos” ao longo de nossa existência.

É bem mais difícil começar de novo se paramos completamente. Então, não desperdicemos as valiosas chances que a vida nos apresenta todos os dias, em vários setores de nossas vidas. Sempre existirá algo que pode ser feito agora mesmo, ainda hoje e, na maioria das vezes, os primeiros passos pelo menos, dependem somente de nós. Pode não ser muito, mas fará com que continuemos no jogo. Corramos, portanto. Daqui a pouco ou amanhã pode ser tarde demais. Façamos com verdadeira vontade e ardor a parte que nos cabe. É somente assim que a vida pode verdadeiramente caminhar, ou seja, cada um precisa, necessariamente, fazer a parte que lhe cabe. Não existe unilateralidade nas relações humanas maduras e saudáveis, em qualquer questão que se possa pensar. Não deixemos que nosso medo ou nossa neurose nos impeça o movimento. Não deixemos que a poeira, a sujeira e o mofo tomem conta de nosso interior, de nosso coração e de tudo o que é verdadeiramente importante para nós. Não permitamos que escaras fétidas se espalhem por nosso corpo e nossa alma pela nossa inércia, por nossas dúvidas ou nossa falta de coragem. Corramos ao ritmo de nosso próprio tempo, mas corramos... E, se por um acaso, não conseguirmos correr, marchemos. Se não conseguirmos marchar, andemos o quanto rápido pudermos. Se não pudermos ir rápido, caminhemos lentamente. Se não conseguirmos caminhar, usemos uma bengala. Mas seja o que e como for, que o Ano Novo de cada um de nós, coincidindo ou não com o Ano Novo do calendário, possa acontecer consistentemente, renovando nossas esperanças, nossas visões, nossos desejos e promovendo nossas reavaliações e realizações no sentido do nosso constante aprimoramento e crescimento. Feliz renovação e feliz recomeço a todos!!! E um super, maravilhoso e feliz Ano Novo!!!

sábado, 19 de dezembro de 2009

TEMPO DE RENASCER

"Esse ano eu quero paz no meu coração/ Quem quiser ter um amigo, que me dê a mão/ O tempo passa e com ele caminhamos todos juntos, sem parar/ nossos passos pelo chão vão ficar/ Marcas do que se foi, sonhos que vamos ter/ como todo dia nasce novo em cada amanhecer..."(Márcio Moura/ Rui Maurity/ José Jorge/ Tavito/ P.S.Valle/ Ribeiro) - Fotomontagem: Acervo Pessoal





BOAS FESTAS E FELIZ ANO NOVO!!!

Por Veruska Queiroz



E mais um ano, mais um ciclo está terminando. Quando alguma coisa termina, duas coisas são possíveis: ou no lugar do que está terminando fica um nada, um lugar vazio ou no máximo ruínas e escombros, por um tempo ou para sempre ou no lugar do que está terminando, algo novo será construído, alguma coisa começará ou recomeçará renovada.

Quando imaginamos que algo está terminando ou terminou quase sempre o que vem a nossa cabeça são imagens de destruição, de desmoronamento, de encerramento, de não mais existência daquilo, de morte, de finalização em seu próprio fim. Sim, uma das vertentes é mesmo essa. Mas há uma outra vertente a que poucos se atentam: o fim de algo pode ser também sua própria reformulação, sua renovação e seu próprio renascimento sem necessariamente seu desaparecimento, sua inexistência. Uma coisa em essência pode não precisar se extinguir para que um determinado fim seja algo factível e real: não derrubamos uma casa quando queremos dar um fim a alguns ou a todos os móveis. Não destruímos e não jogamos fora uma peça de roupa quando queremos acabar com a sujeira. Ao lavarmos a roupa suja estaremos promovendo um determinado fim – que é a sujeira - mas a essência – que é a roupa – será renovada e continuará a existir. Às vezes só precisamos mesmo disso: retirar a sujeira para que a beleza da roupa ressurja e continue a embelezar nossa silhueta.

Assim são nossos dias, que se agrupam em meses e depois em anos.
Penso que o fim de um ano significa isso: a renovação dos dias, das esperanças, dos pensamentos, das ações e dos projetos; a limpeza, a reformulação e o rearranjo das coisas e o renascimento de nós mesmos. E, nós nos preparamos, dessa forma, para um novo ciclo, nos refazemos para darmos novos passos e recomeçarmos nossos caminhos com roupas limpas e renovadas.

Dito isso, agradeço de coração a todos que me acompanharam nesse ano de 2009 aqui no blog. É chegada a hora de encerrar um ciclo para (re)começar outro daqui a pouco, em 2010, com idéias renovadas, com um novo ânimo e com novas perspectivas.
Por isso e pelo extremo respeito e carinho que tenho a todos que leem meus textos, me despeço desse ano de 2009 aqui no blog desejando a todos Boas Festas e um Ano Novo felicíssimo de mto amor, realizações, paz e luz!!!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

SOU ASSIM...

“Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...”(F.Pessoa/A.Caeiro) - Imagem: Google Imagens





SOU COMO NINGUÉM ME FEZ
Por Veruska Queiroz


Sou chegada e partida
Sou rastro e mistério
Sou olhar e coração
Sou alma e sou pele
Sou clareza e confusão
Sou limite e inundação
Sou clave
Sou chave
Sou porta
Sou porão
Sou eu e sou o outro
Sou sozinha e multidão
Sou direito e avesso
Sou o essencial e o adereço
Sou densa e sou pluma
Sou frágil e sou forte
Sou suave e rascante
Sou todos os lados, o sul e o norte
Sou o nó e o laço
Sou a luta e o cansaço
Sou a discórdia e o abraço
Sou sorriso e paetês
Sou choro e vela
Sou ponto e reticências
Sou inteira e incompleta
Sou equilíbrio e desatino
Sou louca e sou santa
Sou menina e sou mulher
Sou aquela que dança e encanta
Sou bailarina e sou palhaço
Sou o arco e o chão
Sou nuvem e poeira
Sou sem eira nem beira
Sou inverno e verão
Sou excesso e escassez
Na medida e sem medidas
Sou loucura e sensatez
Sou o melhor do que conheço
Sou o pior do que temo em conhecer
Sou a morte e o renascer
Sou o sol e sou o fogo
Sou terra e encontro
Sou quem fica e perturba
Sou quem vai e faz falta
Sou pergunta e sou resposta
Sou elástica e estática
Sou alicerce e trepidação
Sou o oceano e o vulcão
Sou aqui e além, o agora e o depois
Sou enigma e transparência
Sou a maldade e a inocência
Sou aço e areia
Sou a fé e a dúvida
Sou água
Sou lava
Sou chuva
Sou a brisa e a tempestade
Sou embaraço e simplicidade
Sou palavra e gestos
Sou para fora
Sou por dentro
Sou o dia e a noite
Sou paragem e sou passagem
Sou o alívio e o açoite
Sou frente e sou verso
Sou o incômodo e a redenção
Sou acolhimento e provocação
Sou ombro e sou ferro em brasa
Sou óleo de rícino e champagne
Do que posso morrer
E pelo que posso viver
Há sempre quem se engane
Sou mestre e aprendiz
Sou da primavera
Sou erva
Sou Hera
Sou aquela que sempre diz
Sou a definição e o indefinível
Sou mutável e inflexível
Sou vil e nobre
Sou ouro e diamantes
Sou prata e cobre
Sou embate e quietude
Sou de perto e de longe
Sou o eterno e a finitude
Sou daqui e de Marte
Sou Vênus
Sou Afrodite
Sou Minerva
Sou Centauro
Sou obra de arte
Sou teimosa e decidida
Sou chocolate e sou pimenta ardida
Vôo alto e sou pé no chão
Sou de salto alto
Ando na contramão
Sou de lua
Sou estrela
De todos os cantos
De mais de mil encantos
De primeira grandeza.
Sou segredo e nudez
Sou voz e mudez
Sou como ninguém me fez.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

QUESTÃO EXISTENCIAL

A ética é a estética de dentro” (Pierre Reverdy) - Imagem: Flickr





A ESTÉTICA E A ELEGÂNCIA DA EXISTÊNCIA

Por Veruska Queiroz


Por uma série de razões (e entendo que a maioria delas são amplamente justificáveis) não se fala em outro assunto nos últimos dias a não ser no “episódio da aluna hostilizada por causa de seu microvestido rosa choque" – e perdoem-me o trocadilho, mas parece que chocou mesmo - ocorrido na Uniban, uma faculdade particular de São Bernardo do Campo-SP, na noite da quinta feira dia 22 de outubro. Motivada por uma intensa reverberação mental que acontecimentos dessa natureza me provoca e por uma grande excitação em voltar a escrever no blog, vou tentar aqui concatenar algumas idéias que tenho a respeito de civilidade, elegância da convivência e estética da existência (essa não totalmente nas mesmas perspectivas do pensamento de Foucault, embora muito perpasse ali) e alinhavá-las, na medida do possível, com algumas linhas de pensamento que são minhas bases de estudo permanente. Só para esclarecer, estética assumirá aqui um contorno mais subjetivo e elaborado, algo mais no âmbito da forma como se colocar no mundo segundo suas próprias definições, que não significa definitivamente aparência e beleza, mesmo que, em certa medida, a serviço do bom senso, essas últimas não possam ser totalmente descredenciadas. Nesse contexto e no presente texto, a estética da existência é pontuada muito mais para focalizar a execrável atitude dos jovens agressores do que propriamente qualquer atitude da aluna agredida.

O terrível acontecimento com a jovem Geyse Arruda, de 20 anos, encontrou repercussão aos quatro ventos e em toda esquina: matérias em todos os jornais e telejornais com repetição maciça dos vídeos gravados pelos estudantes; sociólogos, psicólogos e educadores apresentando suas considerações, jovens indignados, Glória Kalil no Fantástico: “Ela usou roupa de balada na hora errada e acabou massacrada por isso, mas nada justifica a agressão” e até a cantora Wanderléia em um site: “Quando comecei a usar minissaia, há 40 anos, havia preconceito. Mas, hoje em dia, isso é absurdo”. Uma coisa é inegável: esse episódio suscitou alguns questionamentos em cada um, na sociedade em geral e nos faz pensar a todos, porque parece escancarar o óbvio, mesmo que esse esteja escondidérrimo no porão escuro de cada um de nós: há uma constante tensão entre civilidade/códigos morais e sociais e barbárie, encarnada em certa medida, num todo e também em cada indivíduo em particular e, para nosso horror, a distância entre eles pode ser muito curta. O termo “civilidade” vem da palavra “civitas”, que quer dizer cidade. Tem civilidade, portanto, aquele que sabe viver na cidade, em organizações e convenções sociais onde há códigos e regras a serem seguidos. Se esses códigos e regras são justos ou não, normativos ou punitivos, conservadores ou libertinos, certos ou errados, cada um terá suas próprias direções, opiniões e respostas a respeito e posso concordar que muitas das convenções sociais exercem força de exclusão, repressão, moralismo hipócrita e alienação, mas o fato é que conviver em sociedade exige sim educação, respeito, elegância, civilidade e ética.

Por falar em ética, não posso deixar de citar Foucault (1995), com o qual concordo: “A ética é, em primeira e última instância, um modo de relacionamento do indivíduo consigo mesmo. É o cuidado de si. A ética é criação de e a partir da liberdade e o indivíduo é uma obra – obra de si mesmo, obra de arte.” Para Foucault quanto mais o indivíduo desenvolver essa ética, mais consciência terá de si mesmo e maior será a sua “estetização”, portanto, mais abrangente e melhor será também a concepção desse indivíduo sobre a estética da existência de um modo geral e da vida. Penso que essa forma de pensar a ética pessoal estaria desvinculada de qualquer tipo de esteticismo fantasioso e inconsequente: a escolha de uma deteminada forma de vida baseada na estética da existência, não se produz em meio ao nada ou em meio à "cultura do vale tudo", mas num espaço determinado e bem delimitado no qual algumas escolhas são possíveis e outras não são, porque é preciso que estejamos sempre atentos ao amplo leque de posturas e movimentos do tecido social. Dessa forma, a estética da existência, caracterizando o cuidado consigo mesmo e com o outro e nos levando ao exercício constante da transformação da existência, define as condutas e os critérios estéticos e também éticos do bem viver.

Penso que o lamentável e horroroso acontecimento na faculdade de São Bernardo do Campo tenha causado tanta indignação e discussão justamente porque ele violou e violentou essa estética da existência. O que vimos foi uma violência gratuita de jovens – que negligenciaram totalmente o respeito ao outro e os critérios éticos do bem viver, comportando-se como selvagens - contra uma pessoa que decidiu fazer uma escolha, baseada, se pudermos pensar assim, em uma estética da existência que lhe era correta, segundo seus próprios padrões - e que, em tese, não estava agredindo ninguém ou violando nenhuma regra: usar seu vestido curto rosa para ir à aula. Não estou colocando em discussão se a moça estava ou não vestida adequadamente para o local em que ela se encontrava, isso é uma outra questão, embora, pessoalmente eu considere, entre outras coisas, que ela tenha errado sim ao escolher a bendita peça rosa choque. Mas, o fato é que mesmo que alguém não esteja “muito adequado” para essa ou aquela situação ou local, propositadamente ou não, isso não abre precedentes para a barbárie, para os insultos, agressões, discriminações e humilhações. Onde está a civilidade? Onde estão a educação e o respeito, princípios humanos básicos por definição? Onde está a elegância? Lembrei-me de Costanza Pascolato (2009), que em certa medida, para um olhar mais atento e refinado, corrobora em várias nuances com a estética da existência de Foucault: “Freqüentemente confundida com estilo, elegância é, na definição literal, o requinte que distingue a postura correta, o refinamento natural. Elegância é apuro do porte e das maneiras. Tem muito mais a ver com aprimoramento pessoal do que com aparência. Ser elegante é, em última análise, uma questão existencial, de como você pensa sua vida, como se coloca no mundo.”

A disseminação da cultura da permissividade segundo a qual cada um pode fazer e dizer o que bem entender, sem se importar com o espaço e o direito alheios, preconizando assim a falsa idéia de uma forma de vida mais livre e menos “amarrada” aos modelos vigentes de uma cultura com padrões ultrapassados, demonstra, muito pelo contrário, uma falta total de adequação social e uma incapacidade fatal de convivência, pois em última análise, a falta de educação, a selvageria, a agressão, a barbárie, a falta de controle sobre si mesmo e a negligência ao outro em qualquer sentido, são todos fatores de grave desagregação social e, muito antes, de intensa degradação pessoal, como já vimos.

Em suma, uma vez conscientes de que a vida essencialmente é baseada nas relações, temos de ter em mente que os desejos, pensamentos, opiniões, atitudes e modo de viver das outras pessoas são tão válidos quantos os nossos, estejamos nós de acordo com eles ou não e que educação, respeito, civilidade e elegância são conceitos básicos e serão sempre muito bem vindos em qualquer lugar e em qualquer circunstância, não importando se o vestido da pessoa ao lado é curto, mini, longo, feio ou bonito, adequado ou totalmente fora de contexto e nem se ela está na faculdade, em uma “balada” ou até mesmo em uma praia ou em uma festa Black-Tie. É claro que na outra ponta desse complexo mundo humano demasiado humano podemos lembrar da máxima - com a qual concordo - que diz: "Água benta e bom senso não fazem mal a ninguém" e, baseada nessa premissa, penso que devemos, sim, estarmos sempre atentos a nossa aparência, ao que vestimos, ao modo como nos portamos, a nossa conduta e aos nossos atos, em todos os lugares por onde passamos e existe sim, essa e aquela postura mais ou menos adequada a essa ou aquela situação ou local, afinal tudo isso também tem direta relação com a civilidade, com o viver em uma determinada sociedade baseada em certas normas e com o respeito a si mesmo e ao outro. Mas em nome disso jamais pode estar a serviço a agressão, a violência, a selvageria, falta da estética e a falta da elegância da existência.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

SINAL DOS NOVOS TEMPOS

“Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir”. (Michel Foucault) - Imagem: Corbis Images




UM NOVO HOMEM, UMA NOVA MULHER
Por Veruska Queiroz



As transformações econômicas e sócio-culturais da modernidade, a revolução sexual dos anos 6O, os movimentos feministas, a necessidade da revisão de antigos conceitos e da criação de novos padrões e a crise da masculinidade, foram alguns dos fatores que contribuíram para uma reorganização de valores e costumes ao longo dos anos. Também os referenciais simbólicos do masculino e do feminino se reestruturavam e, de modo mais direto, incidiam pontualmente nas identificações e na construção de uma nova identidade sexuada. Nessa perspectiva, levando-se em consideração a pluralidade cultural humana e suas incontáveis formas de expressões, podemos levantar algumas questões: Que ideologias permeiam os discursos masculino e feminino? Qual o novo compasso do homem contemporâneo face à sua própria masculinidade?

No contexto histórico cultural da humanidade, o poder sempre esteve intimamente ligado à masculinidade: seja pela representação do provedor, do machão, do sábio, do caçador corajoso ou do bem sucedido empresário. Os símbolos da condição masculina para projetar esse poder encontram sua representação no prestígio e na força (mesmo essa sendo intelectual) e a rivalidade, a competição e o conflito são o seu corolário. Ser sexualmente ativo e sustentar financeiramente a família, exercendo a autoridade e o poder (quando não a força e a violência física ou psicológica) no meio familiar e no trabalho, eram (ou ainda são) condições básicas para ser considerado um homem. Mas, o que é ser um homem? O que é não ser um homem? O que se espera do homem nos dias atuais? Nesse contexto, assim como Freud perguntou: “O que quer a mulher?”, podemos também indagar: O que quer o homem? Ainda quanto à representação do poder masculino, ele é, sem dúvida, representado de forma unânime e quase soberana pelo seu “órgão máximo”, o pênis, segundo eles próprios. Um parênteses: numa perspectiva psicanalítica, se nos reportássemos às vicissitudes edípicas, a qual não irei me ater aqui por sua extrema complexidade, pênis não é igual a falo (representante, em quaisquer circunstâncias, do poder), mas, no caso dos homens, o falo também está representado pelo pênis e coincide com esse e ele então se torna o centro de onde emana o suposto poder que sustenta teoricamente a nação masculina. (Falo= símbolo de poder/ Pênis= órgão anatômico). O poder, então, é entendido como virilidade, respeitabilidade, irredutibilidade, autoridade, invulnerabilidade, força. Nesse sentido já podemos delinear um grande furo e ver que o feitiço, nesse caso, se vira mesmo contra o feiticeiro: para o homem ser Homem com H maiúsculo segundo o discurso da cultura, ele tem de bancar uma postura idealizada, irreal, heróica e quase sobrenatural que acaba por se tornar dolorosa, pois ele se torna escravo das próprias características que deveriam lhe trazer mais liberdade, já que, nessa linha de raciocínio podemos entender que o poder o faria livre, forte, soberano, dono de si, auto-suficiente e indestrutível e não é isso que acontece.

Mas, como nada continua como antes no castelo de Abrantes, esse antigo papel que os homens desempenhavam e toda a sua conduta e posicionamento perante a sua masculinidade foram à banca rota. Aquele homem de 20, 30, 40 anos atrás que a mãe preparou e as tias do colégio confirmaram já não sabe mais quem é, não sabe o que fazer e está dando murros desajeitados e desesperados no ar. Como nos fala Calligaris (Veja, 03/06/2009), “o homem passou a não saber mais ser Homem”. E para alguns, tristemente, a equação para provar sua masculinidade, poder, força e virilidade ainda continua presa às questões da vida sexual. Pobres criaturas. O papel tradicional dos homens que era o de provedor passou a ser distribuído entre homens e mulheres. As mulheres, a partir da metade do século passado, mesmo aquelas que não tinham como prover o sustento da família já não aceitavam mais ser um objeto de satisfação do companheiro e nem um objeto de adorno ou de decoração dentro de casa, ou ainda somente aquela com a função de cuidar dos filhos, da casa e do “distinto provedor”. Mesmo que ainda houvesse esse provedor, em certa medida, as mulheres começaram a questionar sobre seu lugar de Mulher no mundo e começaram a mudá-lo, ou seja, a Mulher começa a estudar, a trabalhar, a decidir sobre quantos filhos teria, a querer ter prazer sexual, a querer ter companheirismo e dedicação de seus parceiros e a estarem supridas emocional e fisicamente em suas necessidades e desejos de Mulher.

Então, qual seria o Homem que deveria emergir dessa avalanche de transformações? Nolasco (2001) nos aponta uma das muitas direções possíveis: "A 'nova masculinidade' requer, do homem, sensibilidade e acolhimento sem comprometimento da virilidade; assertividade, competição, iniciativa, sem implicar em antigos padrões de poder, controle, agressão ou violência". Podemos, com isso, entender que o homem ou esse 'Novo Homem' está vivendo uma fase de transição: a roupa apertada e velha de machão não serve mais e a nova não ficou pronta. Ele tem de reaprender a se expressar e se masculinizar outra vez, numa nova ordem, sob um novo ponto de vista e com uma nova postura. Ao mesmo tempo, no que diz respeito à mulher, se ela quiser se relacionar com esse 'Novo Homem' e com o que há de melhor na essência masculina, terá que ajudar o homem nesse estágio. Sei que corro o risco de ser queimada na fogueira ou lançada ao limbo, mas penso que, nesse sentido, a mulher precisa dar alguns passinhos para trás: ajudar o homem para também ser ajudada por ele, na medida em que ambos possam crescer juntos, numa nova perspectiva, que não mais aquela da disputa, da competitividade e da rivalidade criada pelos tempos modernos(serão modenos mesmo?). O caminho também não pode ser aquele antigo, representando pelo par submissão/comando, onde o papel submisso cabia à mulher e ao homem era destinada a função de "chefe" de família, de autoridade, de comando. Tanto o homem quanto a mulher precisam de novas direções e diretrizes nesse (re)encontro um com o outro e ambos precisam fazer alguns ajustes. Se o homem precisa rever seu papel de homem e encontrar uma maneira mais atual de ser no mundo, a mulher não fica atrás nesse processo. A mulher também carregou nas tintas em muitos aspectos: exagerou na dose ao afirmar sua independência e tentar provar que está em conformidade com os 'novos tempos'. Deixou escapar a impressão de que o homem não é mais tão necessário - e até em alguns casos, desnecessários mesmo: se precisa ter um carro, faz um curso intensivo de mecânica para não “precisar depender de um homem” caso alguma coisa aconteça; se o encanamento dá problemas, ela que (principalmente se mora sozinha), já comprou um arsenal de ferramentas se mete a tentar consertá-lo; se dobra e se desdobra em múltiplas atividades e funções (mesmo que para isso tenha de ficar exaurida e sem tempo para fazer “coisas de mulherzinhas” tão boas de ser feitas) para provar que é moderna, independente, auto suficiente e tão capaz quanto o homem, tanto profissionalmente e intelectualmente quanto financeiramente. Se deseja prazer, ela usa vibradores; se opta por ser mãe quer produção independente ou recorre a um banco de sêmen. Ufa... Esta mulher, ao contrário de ser vista como uma parceira que pode partilhar com o parceiro uma série de funções e obrigações que antes lhe eram exclusivas e, dessa forma dividir responsabilidades, alegrias, tristezas, sabores e dissabores, é vista como uma rival. Ela não é vista mais como uma companheira a ser cortejada, conquistada, cuidada e protegida (e porque não?), mas uma igual (no sentido masculino de sentir alguém como igual) com quem é preciso competir, disputar, rivalizar, brigar... uma inimiga a ser vencida. E o mais triste nesses casos é que nessa batalha não há vencedores nem vencidos, ambos perdem, e perdem muito. Como cada uma das partes que compõe a relação tem as fatias do bolo que lhes pertecem, no que se refere à mulher, depois da ginástica pesada para treinar sua auto-afirmação e de dar provas de capacidade global, talvez tenha chegado a hora de refluir, de repensar sobre antigas questões acerca de ser Mulher sob um novo prisma para reencontrar e reposicionar sua feminilidade com mais segurança e graciosidade.

Para quem ainda possa querer lançar-me ao limbo, reporto-me ao que Maria Rita Kehl (2000) discute acerca da função fraterna – função essa que adquiriu essa conceituação exatamente pela proposta da igualdade entre os sexos: os parceiros, numa relação de igualdade, como semelhantes, dariam conta, fundamentalmente, de restituírem o narcisismo mútuo. Isso leva a conseqüências problemáticas, uma vez que “irmãozinhos” não transam. Talvez fosse interessante relembrarmos aqui que o desejo é uma das conseqüências da diferença. Se há a igualdade para onde vai o desejo?

Nesse contexto precisamos nos lembrar que, o que precisamente nos causa uma grande dor, também nos liberta, em certa medida: a castração é o calcanhar de Aquiles de todos nós. Nesse contexto, I.Marazina(2005) fala sobre o desejo dizendo que é por isso que precisamos relançá-lo incessantemente, pois vivendo na ilusão da completude, nos decepcionamos quando alcançamos o objeto e o engano é constantemente revelado. Ela ainda sugere que um amor que consiga se sustentar nesse trânsito e na lucidez desse desengano, possa percorrer caminhos com menos exigência e, consequentemente, menos sofrimento.

Em resumo: talvez o homem (e, muitas vezes, a mulher também) em referência ao modelo antigo hegemônico de masculinidade baseado na força, poder e virilidade realmente esteja em crise e em severo declínio, mas é possível que ele consiga sobreviver e reaprender a viver, só que será obrigado a repensar e a reestruturar sua maneira de ser Homem e a lidar com uma nova forma de masculinidade. E talvez a mulher devesse fazer o mesmo no que tange a uma nova maneira de ser Mulher e a lidar com uma nova forma de feminilidade.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

APRENDIZADO E CRESCIMENTO

“Ostra feliz não faz pérolas” (Rubem Alves) - Imagem: Google Imagens




DE DENTRO PRA FORA, DE FORA PRA DENTRO.

Por Veruska Queiroz


Pensei em escrever algo temático e profundo, algo de vezes e vozes, algo de pensar e de quietude, algo de amarelo, dourado e violeta, algo que me fizesse compreender o que ainda não compreendo, que me fizesse calar quando tenho vontade de falar e que me fizesse gritar o que ainda só consigo elaborar no silêncio.
Também pensei em escrever para traduzir minhas alegrias doídas e minhas angústias alegres, palavras não ditas e gritos que jamais deveriam ser gritados. Mas, tal qual aquele dia em que vamos ao nosso analista dizendo que "não temos nada para falar" (só quem faz análise saberá com exatidão do que eu estou falando), minha semana começou com "nada para falar". E, somente para não deixar escapar esse precioso detalhe, são nesses dias em que "não temos nada para falar" que, geralmente, se dão grandes sessões, excelentes insights ou maravilhosos e enriquecidores embates, nesse caso, se não se tratar de uma situação específica de análise. Mais um parênteses: sobre essa coisa de só poder falar sobre algo quem já passou efetivamente por esse mesmo algo ou algo similar que citei acima em relação à analise, Artur da Távola (1986) faz interessantes considerações no texto “Só sabemos o que já sentimos” dizendo que algumas pessoas por serem imaturas, arrogantes, egoístas e covardes acham que podem se meter a saber e a julgar sobre aquilo que nunca sentiram e nunca viveram, quando, na verdade ninguém pode saber o que ainda não sentiu e o que não vivenciou. Como dizia uma amiga, essa é para o dever de casa... Mas, voltando as minhas questões, essa semana nasceu assim para mim: persistia a sensação de que eu não tinha nada para falar, nenhum assunto interessante que eu considerasse consistente para a produção de um texto. E assim as horas irrompiam meu tempo e meu espaço... Algumas pessoas que me conhecem visceral, profunda e verdadeiramente talvez teriam a dizer numa hora dessas - caso fossem perguntadas - que, para quem fala pelos cotovelos como eu, deveria mesmo acontecer de eu sentir, em alguns momentos, que eu não teria nada para falar por ter tanto a dizer... E a coisa toma seu revés: é exatamente por ter tanto a dizer que, às vezes, acho que não tenho nada para falar, me emudeço em mim mesma e as palavras parecem não encontrar saída, porque elas talvez estejam ainda meio desajeitadamente sendo preparadas no compartimento dos sentimentos e das idéias e ainda precisem de um pouco de tempo, de silêncio, de compreensão e de aninhamento. E, se as minhas palavras ainda precisam de um pouco mais de preparo, assim como também ainda precisam de preparo minha carne dura, meu “miolo mole”, minha alma inquieta e meu coração desassossegado, hoje elas estarão se fazendo por outras pessoas...


"...Há impossibilidade de ser além do que se é. No entanto eu me ultrapasso, sou mais do que eu, quase normalmente. Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim ...É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei, mas não posso dizer, tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar, não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo... Mas acredito que o que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós. E se me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.”
(Clarice Lispector- A Paixão segundo G.H, 1993 e Perto do Coração Selvagem, 1999)


“Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê, quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : ‘Fui eu ?’
Deus sabe, porque o escreveu.”
(Fernando Pessoa – Não sei quantas almas tenho, 2005)


“Tinha vantagem não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor, estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo. De vez em quando ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo. Passa logo. Como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado.”
(Adélia Prado – Quero minha mãe, 2005)


“Vim pelo caminho difícil,
a linha que nunca termina,
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina
mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.”
(Paulo Leminki – Distraídos Venceremos, 1995)


"Diferente não é quem o pretenda ser. Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errado... Porém, lugar errado para os outros, que riem de inveja de não serem assim. E de medo de não aguentarem, caso um dia venham a ser. O diferente paga sempre o preço de estar -mesmo sem o querer- alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente aguenta no lombo a ira e a inveja do irremediavelmente comum e mediano. E, por causa disso, muitas vezes sofre e chora. Mas, por ser diferente, entende a pobre alma desses seres e segue adiante.
Aliás, adiante é onde sempre está o diferente. Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber. Diferente é o que, às vezes, diz sempre na hora de calar. Cala sempre nas horas erradas... E procurando ser, consegue ser muito mais. A alma dos diferentes é feita de uma luz além. A estrela dos diferentes é... diferente! Não mexa com o amor, (com o ódio, com o desprezo e/ou com a indiferença) de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suportá-los depois"
(Artur da Távola - O Diferente, 1977, Grifos meus)


“Deste modo ou daquele modo.
Conforme calha ou não calha.
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à idéia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.
E assim escrevo, querendo sentir a
Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso...”
(Fernando Pessoa – O Guardador de Rebanhos/ XLVI, 2005)

“Para quem o chama de complicado, como explicar que a complexidade é rica? Não ligue portanto para aqueles que defensivamente dizem: ‘Puxa, como você é complicado’. Quem o faz talvez esteja temendo caminhar ao seu lado pelas vias de sua grandeza de espírito, tão grande que o confundiria. É mesmo mais fácil escolher um só caminho e acreditar nele. Mais fácil e mais covarde...
Complicação uma ova! Ali estão as luzes de estrelas de primeira grandeza chamadas inteligência, sensibilidade, percepção aguçada, perspicácia e simplicidade, capaz de ver vários caminhos e não um só. Ali estala (instala? entala?) um tal respeito pela emoção e pela vivência do próximo que, às vezes, tudo se esconde na meia frase, na certeza da impossibilidade de certas explicações, pois há pessoas que nunca as entenderiam e na percepção que não se define em conceitos nem em palavras, pois o que se percebe é o que sintetiza em si mesmo.
Ser complicado é saber exatamente em que ponto e medida o outro não vai poder (jamais) perceber o que está em nós, e não se ofender com ele por isso. Ser complicado é ter força para aguentar o máximo da incompreensão e da injustiça por saber da impossibilidade do outro em se estender, em ser emocionalmente inteligente e forte, sem revidar esse mesmo que o fere.
Ser complicado é, de certa forma, se defender do medo (que depois se transformará em raiva ou ódio e depois em mágoa), quando vislumbrarem tudo (nada?) o que (não) são.
Ser complicado é, enfim, estar aberto para o mundo, conseguir vê-lo e ver as pessoas e todas as circunstâncias da vida sem o ódio e a raiva com que se é visto, por colocar instâncias inteligentes ou sensíveis ou puras demais onde as pessoas querem menos, fazem menos e são menos, por comodismo, fraqueza, covardia ou mesmo burrice.
Ser complicado é aceitar o peso de ser diferente porque capaz de ir além, capaz de lutar por coisas que poucos e raros tem coragem para lutar e, por isso, de ameaçar a ordem, de fazer pensar e, pensando, desarrumar, desconstruir para construir coisas novas, de questionar e, assim forçar respostas e por causa delas rearranjar atitudes, pensamentos e emoções.
Quanto menos inteligente, menos caminhos, menos flexibilidade, menos mudanças, menos alterações da ordem porque mais falsas certezas sobre menos coisas. Portanto, seja complicado e, por consequência, verdadeiramente inteligente: tenha menos certeza sobre muito mais coisas...”
(Artur da Távola - Simplificando a complicação, 1986)

“ O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E, de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascer deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo... (...)
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos.”
(Fernando Pessoa – O Guardador de Rebanhos/ II, 2005)

"O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim que não consegui resistir a ele. Enfrentei meus sentimentos. A vida não é racional, ela é louca. E eu não quero viver somente comigo mesma. Quero paixão, prazer e barulho. Quero ouvir música rouca e ver rostos. Quero morder a vida e ser, em certa medida, despedaçada por ela. Eu estava esperando e esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro. Todo o resto foi uma preparação. A verdade é que sou inconstante e sempre preciso de estímulos, perguntas e desafios em muitas direções. Fiquei docemente adormecida por alguns séculos e entrei em erupção sem avisar."
(Anais Nïn – Loucura, 1990)


“Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu, caçador de mim
Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar longe do meu lugar
Eu, caçador de mim
Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim
Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim”
(Milton Nascimento – Caçador de mim)

“Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que eu continue alerta. Que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso do vôo no momento exato. Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. Que meus olhos saibam continuar se alargando sempre...”
(Caio Fernando Abreu - Limite Branco, 2007)

"Quanto a mim, tenho que lhes dizer que as estrelas são os olhos de Deus vigiando para que tudo corra bem. Para sempre. E, como se sabe, ‘sempre’ não acaba nunca."
(Clarice Lispector – Fragmentos, 1999)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

CORAGEM E OUSADIA.

"Nossos complexos são a fonte de nossa fraqueza, mas com freqüência são também a fonte de nossa força."(S.Freud) - Imagem: Psiconet/ Consultório e Divã de Sigmund Freud



NO MEIO DO CAMINHO TINHA UM DIVÃ
Por Veruska Queiroz


Bem, primeiramente preciso me desculpar pela ausência na semana passada. Numa outra oportunidade tentarei elaborar algum texto sobre as experiências vividas externa e, principalmente internamente que me levaram, como sempre, a (re)inventar a mim mesma, mesmo num curto – para alguns - período de uma semana. E, por conta disso e de mais um monte de coisas, não coincidentemente claro, fui assistir ontem ao filme “Divã” com direção de José Alvarenga Jr. (o mesmo de “Os Normais”) adaptado da peça homônima, ambos baseados no livro de mesmo nome de Martha Medeiros. Tentando elaborar meus sentimentos e minhas impressões sobre o filme, fiquei pensando se o mesmo entraria somente na categoria de uma comédia, que é o tom que se pretende passar quase o tempo todo (e, diga-se de passagem, cumpre belíssimamente esse papel e as risadas – ótimas risadas - são do começo ao fim) ou poderia ser também um drama, pois, ao telespectador mais perspicaz e sensível, o filme faz pensar sobre o nosso cotidiano, às vezes, tão somente vivido de forma quase automática, onde não paramos para nos perguntar - muitos porque “não podem” - o que realmente nos move, se somos felizes ou não, se está tudo bem mesmo (sem máscaras, meias verdades ou mentiras veladas) com nossa carreira, nosso casamento, nossa relação com nossos filhos, namorados, amigos, etc... Um parênteses: quando digo que muitos “não podem”, não poder aqui assume o sentido de não se dar conta conscientemente "de ver com olhos de enxergar" - como diz o Rubem Alves - o tanto de poeira acumulada e jogada para debaixo do tapete, de não dar conta de parar para fazer honestas reavaliações da própria vida, das reais realizações pessoais e emocionais ou não, dos sonhos verdadeiros da alma. Enfim, sabemos que muitas pessoas vivem com o piloto automático ligado, vivendo uma vida vazia, triste e medíocre por covardia e medo de ter de olhar para dentro e descobrir, muitas vezes, alguns pedaços de pão bolorento e ter de fazer alguma coisa com isso. A estória do filme é leve, poética, divertidíssima e, ao mesmo tempo, é densa e devastadora, embora isso não fique explícito a um olhar mais pragmático e menos atento. Na verdade, para um certo grupo de pessoas - aquelas que, embora precisem, nunca terão coragem suficiente para dar “aquela virada” na própria vida; o filme soa como uma certa libertação e redenção: através dos conflitos e questões existenciais da personagem, há a possibilidade de se confrontar com os próprios fantasmas, mesmo sequer cogitados e jamais confessos e com a possibilidade de se desejar realmente querer ser feliz.

Em meu último texto falei exatamente sobre essa possibilidade da felicidade indicando que, dentre outras coisas importantíssimas, ela seria um componente intrínseco constituída de vários momentos de alegria que cada sujeito pode ou não carregar no íntimo de sua alma e a chave para todo o mistério estaria, portanto, dentro de cada um de nós e que deveríamos, para tanto ter uma dose generosa de ousadia e coragem. Segundo nos aponta a própria experiência de se viver, a felicidade acompanharia o sujeito que aprendeu a conhecer melhor a si mesmo e, por conseqüência, ao outro, e Escolheu (assim mesmo, com letra maiúscula), SER feliz, buscando realizações pessoal e emocional, acima de tudo, com capacidade para amar e trabalhar que, segundo Freud, seriam as duas condições primordiais para o equilíbrio psíquico e a saúde mental.

Mercedes (a maravilhosa Lília Cabral, que também protagonizou a peça e é co-roteirista do filme) é uma mulher “padrão” e "normal", casada com um homem também “padrão” e "normal", artista plástica com recente exposição de suas obras, professora particular de matemática que teve uma bem sucedida carreira, com dois filhos crescidos e no auge dos 40 e alguns anos decide que precisa de auto-conhecimento. Por mais algumas razões desconhecidas para ela a princípio, decide procurar um analista - daí o título do filme (antes também do livro e da peça). Mercedes resolve se (re)inventar (lembram que eu disse no início do texto que não era por coincidência que eu havia ido assistir ao filme?), embora tenha “certeza” de que esteja tudo bem com sua vida, afinal, pensava ela, ela tinha o que a grande maioria “normal” das pessoas - que, não raro se acomodam e fingem ser felizes - tem ou desejam: nenhuma grande tragédia na vida, uma situação vivencial aparentemente estável em alguns aspectos, um bom marido que era também um bom pai e um bom homem, sexo mais ou menos bom, mais ou menos muito de vez em quando (em alguns casos, na vida real, sexo pode até não existir), filhos com saúde, "bem criados" e aparentemente sem problemas, realização profissional, uma boa casa, grana... O que mais uma pessoa poderia querer? O que estaria errado? Essas são algumas das questões que o filme traz à tona e é aí que ele se desenrola.

Retomando novamente meu último texto, querer (que no exposto acima está mais ligado à necessidade) é diferente de desejo, dentro da perspectiva psicanalítica, como já vimos. No caso do filme, "desejo" talvez possa ser traduzido com a ida da personagem por conta própria ao analista, tendo coragem de olhar com honestidade para si mesma e para sua vida que não a fazia feliz e pelas mudanças que, a partir disso, ela assumiu - com muita dignidade - fazer. O "desejo" é de ordem puramente psíquica e subjetiva e aqui lembro-me do Contardo num texto em que já o citei “Você quer mesmo ser feliz?” onde ele traz a questão de que “algumas pessoas nem sempre querem aquilo que desejam” (Contardo Calligaris, 2008), mesmo que isso lhes custem o preço mais alto de uma existência: a prisão da alma, a triste e dolorida condição de não se ter coragem suficiente para desbravar as próprias trilhas internas, romper com o que está falido há tempos e buscar a si mesmo e a felicidade, seja ela o que for, quem for, como for e onde estiver. O que a corajosa Mercedes faz é ir ao e de encontro a si mesma, (re)descobrindo-se, (re)inventando-se, libertando-se, criando possibilidades mais honestas - e por isso mais verdadeiras e belas - de sentir-se de verdade, de ser feliz de verdade, de viver de verdade. A verdadeira estória dela, se fosse real (se bem que podemos reconhecer várias pessoas que conhecemos na pele da personagem) começaria, na realidade, penso eu, quando o filme termina, pois, repetidamente citando Fernando Pessoa (2005): “A felicidade surge de um desassossego da alma.”  A atitude do sossego e do repouso - principalmente sobre si mesmo, sobre o outro e sobre uma vida que se imagina confortável - pode até ter, em certa medida, suposta e ilusoriamente alguns ingrediente do que se quer - a todo custo - chamar felicidade, mas é tão somente máscara para esconder o feio e deformado, além de ser também repugnantemente covarde e triste, muito triste . E o pior, com o passar do tempo - e se se exceder só um pouquinho além da medida (onde a maioria finge não perceber e não ver), acaba por criar irreversíveis escaras... grandes, feias, sujas e fétidas escaras.

“(...)Eu prefiro na chuva caminhar
que, em dias tristes, em casa me esconder.
Prefiro ser feliz, embora louco,
que me conformidade viver.”
(Martin Luther King, 1963)


Ser feliz de verdade implica arriscar, mudar, transformar, se (re)criar, se (re)inventar, alterar a ordem, trilhar matas virgens da alma e novos caminhos. Implica novas posturas, novas formas de ser e estar no mundo. Implica coragem e ousadia. Se não temos isso, temos muito pouco ou nada. E, para nos (re)inventarmos, nos (re)criarmos e promovermos uma verdadeira transformação, na direção de mais respeito, comprometimento e cuidado com a própria vida, não podemos fechar nossos olhos nem tapar nossos ouvidos. Não podemos nos esconder atrás do conveniente e confortável, não podemos barganhar a própria vida, não podemos vender nossa dignidade, não podemos nos repousar sobre nós mesmos e o que é pior, sobre um outro ou sobre uma situação. Não podemos deixar que as escaras fétidas tomem conta de sua alma. Ao contrário, faz-se necessário termos coragem, ousadia e hombridade para nos embriagarmos de vida, de movimento, de desassossego, de transformação, de alegria, de louca felicidade íntima. Daí temos que ser feliz - segundo o parâmentro de felicidade de cada um - depende unicamente de nós, pois a felicidade - ou a alegria, como queiram - como é intrínseca, é uma escolha. Ela não é um destino, ela é o caminho. E escolha implica comprometimento e responsabilidade. Comprometimento e responsabilidade conosco, com os quais nos relacionamos e com a vida que nos cerca, com tudo o que ela evoca. Mas, se ainda assim precisarmos ser encorajados de alguma maneira com o tumulto que isso pode provocar em nossas veias e artérias fiquemos com a letra de “Balada do Louco” que Rita Lee, anos atrás musicou com Arnaldo Batista, para reflexão: “Dizem que sou muito louco por pensar assim/ Se eu sou muito louco por eu ser feliz/ Mas louco é quem me diz e não é feliz, não é feliz(...)/ Se eles são bonitos, sou Alain Delon/ se eles são famosos/ sou Napoleão(...)/ Se eles têm três carros/ eu posso voar(...)” e assim encerra: “Sim sou muito louco, não vou me curar/ já não sou o único que encontrou a paz/ Mas louco é quem me diz e não é feliz/ Eu sou feliz.” (Os Mutantes, 1972)